SABIA QUE...?

Março 15 2005
Desespero.jpg


ENSAIO / FERNANDO DACOSTA




TERRORES BRANCOS




Prevê-se que em cada cinco crianças nascidas hoje, três jamais arranjarão emprego estável





As gerações que fizeram a guerra colonial, que acreditaram no 25 de Abril, que abriram a democracia, têm agora pela frente, em vez de um tempo afagante, um horizonte áspero – porque opaco de desamparos para os seus descendentes. A crença que as moveu durante a vida saiu-lhes, sai-lhes no final dela, pela culatra. O País mais justo, mais ameno, que pensaram construir não passou, para a maior parte, de uma ilusão, um engodo.



CORROMPIDA, A LIBERDADE imergiu-as em novas (outras) desigualdades, indignidades, como as do crescente, insaciável «triângulo negro» da precarização, escravização, exclusão. Direitos penosamente conquistados (na saúde, na assistência, no trabalho, no ensino, no lazer, na cultura) estão a ser dissolvidos em cascatas de perfumado cinismo light. Os jovens que entram no mundo do emprego fazem-no a prazo, a contrato volátil, vendo-se, sem a mínima segurança, impedidos de construir uma vida própria, entre zappings de subtarefas e de pós-formações ludibriadoras.



O problema não tem no sistema vigente, o que poucos ousam admitir, solução visível. Enquanto isso há quem, para se confundir (confundir), culpabilize por ele a baixa taxa de natalidade e, lestamente, se proponha incentivá-la – incentivá-la para aumentar o número de crianças abandonadas?, para disparar a percentagem de jovens sem ocupação?, para renovar de carne fresca e farta os canhões, as camas, os catecismos, os esclavagismos? Prevê-se, com efeito, que em cada cinco crianças nascidas hoje em Portugal, três jamais arranjarão emprego estável.



A QUEDA, POR EXEMPLO, de descontos para a Previdência (que tanta ondulação provoca) não advém da falta de trabalhadores com vontade de fazê-los – aos descontos; advém, sim, da falta de trabalho para serem feitos. Há já mais de 600 mil desempregados «seniores» e de 80 mil jovens à procura do primeiro emprego (40 mil licenciados), sem que ninguém, ao que se observa, se dinamize com isso. Nesta fase, as teses «coelheiras» só iriam agravar, não resolver, os problemas demográficos existentes.




SUBIR A IDADE DA REFORMA PARA OS 70 ANOS (aos 50 um trabalhador começa a ser tratado pelos superiores e colegas como um estorvo), aumentar os horários laborais ( a produção tornou-se não insuficiente mas excessiva para o mercado), congelar os salários líquidos (enquanto a inflação os baixa) como defendem certos especialistas (que preservam, no entanto, para si retribuições e reformas milionárias) apenas desarticulará o mecanismo social que a humanidade vem, penosamente, construindo no sentido de tornar a existência mais digna e solidária.



As velhas gerações , a sair de cena, agarram-se às influências que julgam, julgavam, manter, merecer. Disfarçando desesperos, socalcam sem resultados patéticas vias sacras de cunhas, súplicas, empenhos, hipotecas, tráficos. As crispações que não sentiram quando, décadas atrás, iniciaram as suas carreiras (eram de outro tipo as, então, sofridas) experimentam-nas agora em relação à insegurança inquietante dos filhos e netos.
Ingénuas, acreditaram que bastava, como no seu tempo, um curso superior para se ficar protegido, promovido. Fizeram os seus tirá-lo sem reparar que as universidades se transformaram de clubes VIP em fábricas massificadoras, cada vez mais vazias de elitismos internos e poderes externos.





SÓ OS FILHOS-FAMÍLIA DE FAMÍLIAS dominantes (na direita, no centro e na esquerda, na economia, na política e nos lobbies) dispõem de privilégios garantidos, defendidos.
Portugal continua a ser, mentalmente, uma monarquia – não de sangue azulado mas de compadrio adensado, não de aristocratas aquosos mas de padrinhos gordurosos.



Que será dos jovens quando se lhes acabarem a casa, a mesada, a protecção, os enlevos dos progenitores?



Um terror branco asfixia silenciosamente, para lá do pressentível, várias gerações de nós – entre nós.




(Visão 625-24/02/05)



N/Comentário : Retrato duro mas fiel da situação actual em Portugal. Achei de bastante interesse trazer ao conhecimento de todos (especialmente aos não leitores da Visão) este texto de Fernando Dacosta.

publicado por Lumife às 19:16

O que o Fernando Dacosta não sabe é que essa preocupação que ele levanta, já foi levantada em tempos da civilização romana e grega, em tempos negros durante a época medieval na Europa, na Grande depressão nos Estados Unidos no início do século XX, durante a revolução industrial na Inglaterra, no final da II Guerra Mundial, etc, etc, etc... afinal os receios continuam. Pode ser que no início do século XXII surja mais algum Dacosta a levantar questões como esta!Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)
Anónimo a 15 de Março de 2005 às 22:54

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