SABIA QUE...?

Fevereiro 01 2005
pov.jpg(Rico-SergeiCartoons)



Vai por aí um coro de queixumes sobre as alternativas políticas que se oferecem para as legislativas de 20 de Fevereiro que até leva a crer que os portugueses despertaram, subitamente, e não reconhecem o país onde vivem. É tal a onda de sobranceria face à qualidade dos políticos e de desdém pela campanha eleitoral que até chega a parecer que a sociedade civil portuguesa se tornou, de repente, a mais culta, exigente e desenvolvida da chamada civilização ocidental.

A lamúria atingiu níveis nunca vistos, em todos os quadrantes profissionais, ideológicos ou residenciais. E, no nicho de mercado dos comentadores jornalísticos e televisivos, atingiu os píncaros. Que os líderes partidários são produtos mediáticos vazios de conteúdo. Que só falam entre si e para si mesmos. Que o discurso é sempre igual e só se ocupam de «faits-divers» como a questiúncula dos debates. Que não apresentam ideias para o país nem galvanizam os eleitores. Que se vai votar com o mesmo entusiasmo com que se vai a um funeral. Que a abstenção ou o voto branco é o que eles merecem. Que, que, que… O comentário sobranceiro e depreciativo sobre os políticos e as eleições tornou-se a moda mais «in» neste início de 2005.

Ora, a verdade é que este avassalador coro de críticos pouco se interessa (nem está interessado em saber) sobre as implicações ou a exequibilidade da proposta do PS em reduzir em 75 mil o número de funcionários públicos nos próximos quatro anos, sobre a viabilidade empresarial da proposta do PSD em subir o peso das exportações no PIB de 30% para 40%, sobre as consequências a médio prazo das medidas avançadas pelo CDS para assegurar a sustentabilidade da Segurança Social, sobre os efeitos de um aumento do consumo como pede o PCP ou da sua rejeição do Código de Trabalho ou sobre o programa do BE tão glosado por Mário Soares.



A maioria dos portugueses (e dos que falam de alto e com desprezo dos políticos e das eleições) prefere ler «A Bola» ou a revista «Maria» (as tiragens são de centenas de milhares por semana) ao enorme esforço mental de se informar sobre um ou dois programas eleitorais. Prefere ver uma telenovela, uns palermas do riso ou uma qualquer quinta de nulidades à cansativa tarefa de seguir durante mais de dez minutos um debate sobre questões sociais ou políticas (os «shares» são esmagadoramente esclarecedores).

A maioria dos portugueses (e dos que tanto deploram o «oportunismo» dos políticos) queixa-se muito da fraude e evasão fiscais mas recusa (ou não pede) facturas por sistema e fecha convenientemente os olhos ao amigo que declara falências fraudulentas e ao familiar que não declara o grosso dos seus rendimentos aos impostos. Queixa-se muito da burocracia e do mau serviço do funcionalismo público, mas não resiste a meter umas «cunhas» aos conhecidos do partido, quando os governos e as autarquias mudam de cor, para darem emprego a mais uns quantos e encherem a Administração Pública de clientelas partidárias.

A história do bom povo e dos maus políticos é uma ficção. Para tranquilizar os espíritos mais fracos e afagar o ego de uma sociedade pouco exigente. Que prefere os expedientes à organização, pouco estudiosa e com péssimos índices de escolaridade, má trabalhadora e com baixas taxas de produtividade, com uma classe empresarial pouco instruída e habituada a viver de falcatruas, com uma escola de gestores cujo estatuto e vencimentos são muito superiores à qualidade do seu desempenho ou à sua capacidade de iniciativa. Uma sociedade que raramente se mobiliza para as grandes questões cívicas, pouco ou nada participativa na vida política e partidária.

É certo que a qualidade dos dirigentes políticos não é comparável à dos primeiros anos pós-25 de Abril. Nem se esperaria que fosse, pois havia o desígnio de construção de uma jovem democracia e da sua consolidação que mobilizou os melhores economistas, juristas, advogados, professores e representantes de todas as profissões e sectores sociais para a actividade política e governativa. A partir da revisão constitucional de 1982 e da estabilização do regime, outros valores e interesses se levantaram.

É certo, ainda, que a degradação do funcionamento das forças partidárias, em circuito fechado, e até do prestígio e remuneração das funções políticas tem afastado muitos valores qualificados e empobrecido a competência e o nível de conhecimentos médios dos dirigentes partidários. Mas isso é, também, o reflexo do desinteresse, da falta de participação e da pouca exigência dos portugueses, nesta como noutras matérias. Matérias que reclamam esforço, motivação cívica, disponibilidade, empenho, disciplina e, muitas vezes, estudo. Coisas a que os portugueses não são muito dados.

Os partidos políticos e os seus principais responsáveis são, obviamente, um espelho do país e do seu nível de desenvolvimento. Ainda assim (e ressalvando alguns epifenómenos), muitos deles situam-se bem acima da média, quer do ponto de vista de conhecimentos e de formação quer da capacidade e das horas de trabalho que dedicam à esfera pública.

O bom povo e os maus políticos é uma ficção, porventura reconfortante. Não é, seguramente, o caso português.





27 Janeiro 2005


(A Opinião de José António Lima - Expresso)

publicado por Lumife às 22:00

Olá, reparei que de vez enquando utilizam trabalhos do meu site - www.sergeicartoons.com
Gostava muito de contar com um link de vocês para aqui! Era uma boa, né? Obrigado!Sergei
(http://www.sergeicartoons.com)
(mailto:sergeicartoons@iol.pt)
Anónimo a 13 de Março de 2005 às 13:10

Tenho pensado nisso,chego à conclusão que é necessário penalizar os não votantes, maneira mais eficaz, impedindo-os de votar nas eleições seguintes, até próxima repetição das do mesmo tipo daquelas em que se ausentou:
ex--> falta às legislativas, não vota nem nas autárquicas, nem nas presidenciais, nem em qualquer tipo de referendo realizado entretanto, até próximas legislativas.

Questões: Mas com isso não estamos a ter o efeito contrário, afastando as pessoas da participação?

Não! Porque quem, deliberadamente não vota, mostra-se indiferente e se de certa forma não o descriminarmos, continuará a considerar uma atitude normal, a qual não é!
Sentirá a responsabilidade de não votar, através do afastamento social-político.
Não concordo com penalizações monetárias, por considerar que esse sim, seria uma forma duvidosa com interesses mais económicos que apelativos à consciência social. E para não surgirem comentários acusando o sistema de ditaturial.
Óbviamente, os cidadãos excluidos, não entravam nos números das contagens, pois delas não fariam parte!mikelangelus
</a>
(mailto:mikelangelus@msn.com)
Anónimo a 5 de Fevereiro de 2005 às 02:01

Concordo em absoluto!Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)
Anónimo a 2 de Fevereiro de 2005 às 14:25

Por falta de tempo, colo aqui o meu comentário que fiz no blog do Luis Silva qe que se enquadra de alguma forma aqui."Bom dia Luis. Votar é um direito e um dever também. O que falta ao povo português é participar mais activamente na vida politica e falar um pouco menos. Não é só criticar. Isso deixamos ao cuidado dos politicos que o fazem com a mestria a que temos assistido. Participar, dar opiniões válidas, exigir soluções, reclamar de forma inteligente sem deixar margem a esquivas. As greves e as manifestações seguidas de grandes birras em que tudo se manda para o chão, não surtem efeito. São braços de ferro em que um dos braços é de ferro o outro é de uma chapita fraca. Mostrar firmeza e inteligência é o que nos falta. Afinal de contas eles estão lá pagos por nós. Temos que saber ser patrões, exigindo que cada um justifique o seu ordenado."
yulunga
(http://yulunga.blogs.sapo.pt)
(mailto:yulunga1@sapo.pt)
Anónimo a 2 de Fevereiro de 2005 às 13:53

concordo integralmente. acho que deveria ser proíbido ao cidadão que não votou poder reclamar :) ou então, tornar o voto obrigatório, como no luxemburgo.
enfim, fora de brincadeiras, estou plenamente de acordo. trata-se de um ciclo vicioso. o povo não puxa pela elevação da qualidade política dos governantes e estes aplaudem e deixem mais um degrau...O Funcionário Público
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Anónimo a 2 de Fevereiro de 2005 às 13:40

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