SABIA QUE...?

Agosto 06 2004
No Sudão é mais fácil comprar armas do que pão



O Sudão continua a ser o tema africano mais citado e comentado pela imprensa

alemã. "Luta pelo poder, luta pela posse dos recursos" escreve em título o diário


liberal de Munique Süddeutsche Zeitung, frisando que ao longo dos anos o esquema

dos conflitos no Sudão não se alterou. Para o governo de Cartum as regiões da


periferia do país só interessavam como fonte de matérias primas. As populações,

principalmente as etnias africanas do oeste, sul e leste do país não ganhavam nada


com a prosperidade. A exclusão de certas etnias é também uma causa importante do

conflito no Darfour.



Mas, prossegue o jornal, mesmo se o governo de Cartum ignora a pressão do


exterior o risco duma implosão no interior, poderá ser-lhe fatal. No leste e no


centro do país aumenta também a cólera. Mesmo o sul que chegou a acordo com


Cartum poderia regressar à confrontação se o caos aumentar. O Sudão poderia


tornar-se então numa segunda Somália e nenhum poder militar em Cartum


conseguiria impedir uma cisão do maior país da África. Quanto ao embargo de


armas para o Darfour, que alguns reclamam, o jornal considera que ele não serviria

absolutamente para nada porque naquela região é mais fácil comprar uma arma


que um bocado de pão.



Outro jornal, o conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung insiste na riqueza


petrolífera do Sudão que atrai muitas empresas e que anulará naturalmente a


severidade de eventuais sanções."Há muito dinheiro a ganhar no Sudão, escreve


aquele órgão, porque as reservas de petróleo o transformaram num país rico. Os

investimentos directos passaram de 600 milhões de dólares em 2002 para mais de


1.000 milhões em 2003. A razão é simples: depois de 30 anos de guerra civil (entre o

norte e o sul) tudo tem de ser reconstruído. E a reaproximação que se verificou entre


o Sudão e os ocidentais, depois do 11 de Setembro do ano 2.000, electrizou tanto as

sociedades europeias como as asiáticas.



O Sudão é portanto um país rico em petróleo, como há outros em África. E no

entanto, escreve o Frankfurter Rundschau, a falta de energias modernas é um dos

factores que explicam a pobreza crónica da África. O artigo neste jornal é assinado


por Omar Kabbai, presidente do Banco africano de desenvolvimento, com sede em


Tunis; e por Louka Katseli, directora do centro da OCDE para o desenvolvimento, em

Paris. Eles recordam que apesar das suas enormes potencialidades e de ser o


continente onde o Sol mais brilha, a África só possui 1,3% das placas-colectores


solares existentes no mundo. Quanto às energias fósseis, principalmente o petróleo,


só 25% da produção africana é ali gasta. Ora, prosseguem aqueles dois autores, para

além de aumentar a produtividade, uma maior produção de energia aumenta também


as possibilidades da educação; e melhora o acesso à informação. Cidadãos melhor

informados participam mais activamente no processo de tomada de decisões nos seus

países. O resultado são instituições mais democráticas e governos que actuam de


maneira mais transparente e mais responsável.



"Há poucos meses ainda, escreve o semanário Die Zeit que se publica em Hamburgo,


as Nações Unidas confessaram-se culpadas de não terem feito nada para impedir o

genocídio no Ruanda em 1994. Diversos governos ocidentais prometeram que isso


"nunca mais" voltaria a acontecer. Mas quando o disseram, o próximo genocídio já


tinha começado e estava a verificar-se – no Sudão. Apoiadas pelo governo de Cartum


as milícias árabes aterrorizam e perseguem a população africana da província de


Darfur. Só agora é que os EUA e a União Europeia encaram a hipótese de adoptar


sanções contra aquele país.



Mas não se assistiu a uma tempestade de protestos ocidentais e de manifestações


de solidariedade com os "malditos da terra". No caso do Sudão há demasiados


factores que complicam e atrapalham a ideologia adoptada pelo 3º mundo. Bandos


árabes fazem saneamento étnico de africanos negros – este facto não conjuga bem


com a ideia de que o racismo e o colonialismo foram ou são uma especialidade de

europeus e americanos; e de que os árabes foram também vítimas deles. Um regime

islâmico faz massacrar grupos de população, islâmica na sua maioria. Ora este facto


é difícilmente conciliável com a tese de de que os muçulmanos estão actualmente a


ser vítimas duma nova cruzada do Ocidente contra o Islão. E mesmo os críticos da

globalização, organizados no Attac, não conseguem provar, depois de muito esforço

intelectual, que os massacres no sul do Sudão sejam causados pela política neo-liberal

ditada pelo Banco mundial.



As nossas ruas continuarão portanto a não assistir a manifestações de protesto contra

mais este genocídio. Mas se o Ocidente intervier, o governo sudanês não deixará de


dizer que se trata dum ataque ao Islão. Talvez que então os adversários ocidentais do

colonialismo ergam barricadas para protestar.



publicado por Lumife às 01:15

Não há palavras que descrevam o horror!Um abraço.Agostinho
(http://www.evtagostinho.blogs.sapo.pt)
(mailto:ag_silva@hotmail.com)
Anónimo a 8 de Agosto de 2004 às 04:42

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