SABIA QUE...?

Maio 12 2009

 

 

 

 

O sono comanda a vida

Ocupamos um terço da nossa vida a dormir e a falta de sono pode ter consequências graves. Eis as razões para a insónia e a forma como ela pode ser combatida.

Dizem os especialistas que dormir é tão vital quanto saciar a sede. Não é por acaso que passamos mais de um terço das nossas vidas a usufruir do merecido descanso. Mas, se é um dos milhares de portugueses que passam as noites em branco, não feche os olhos a alguns dos conselhos que se seguem. Em vez de contar carneirinhos a noite toda, apresentamos algumas soluções para voltar a fazer as pazes com a sua almofada.

Estarão os portugueses a dormir mal? Para João Carlos Winck, responsável pela consulta de Patologia do Sono do Serviço de Pneumologia do Hospital de S. João, no Porto, a resposta é claramente positiva: os cidadãos lusos «têm uma grande dívida de sono». «Cada vez se dorme menos e as consequências não tardam a aparecer», reforça o especialista, acrescentando que há uma relação de causalidade entre a privação de sono e a ocorrência de algumas doenças, nomeadamente a obesidade, complicações cardiovasculares e a redução do rendimento escolar.

Quando se encurta a duração total do sono, é como se houvesse uma quebra na corrente, isto porque existem diferentes estádios que «têm de ser respeitados». As experiências realizadas com ratos, em privação do sono, demonstraram que esta inibição foi fatal nestes animais. Quer isto dizer que «o sono», como uma constante da vida, «é fundamental à sobrevivência».

Para ilustrar a importância do repouso, o especialista aponta o famoso desastre do Space Shuttle Challenger. «Os astronautas viram a descolagem excessivamente adiada, durante dois a três dias, por motivos de ordem técnica. Em virtude destes atrasos, a tripulação dormiu pouco e, quando foi necessário actuar, como apresentava um défice reflexos, a nave explodiu. Há muitos depoimentos na História da Humanidade que se prendem com problemas relacionados com o sono».

 

O mal é sono

Em Portugal um terço da população dá ou já deu em alguma altura da vida voltas na cama devido às insónias. «Trata-se de uma situação que interfere com a saúde das pessoas e com o próprio rendimento pessoal e profissional», refere António Atalaia, membro da Direcção da Associação Portuguesa de Sono (APS).

Uma das principais causas de insónia apontadas pelo neurofisiologista é o stresse. «Um dia-a-dia mais acelerado contribui, sobremaneira, para uma pior higiene do sono.» Para resolver o problema das insónias, pode-se recorrer à toma de hipnóticos. Mas, como adianta António Atalaia, estes medicamentos, quando tomados a longo prazo e sem supervisão médica, «podem ser motivo do agravamento da insónia e não de tratamento».

Para João Carlos Winck, há uma tendência para alguns doentes se automedicarem. Esta situação gera, na perspectiva do especialista, «uma situação de dependência». Antes de se administrarem os fármacos, é preciso, antes de mais, compreender «as razões se escondem por detrás de um mau sono».

 Acertar os ponteiros

Uma das estratégias para resolver as insónias, pode ser a terapia comportamental. Este método visa restaurar as associações positivas ligadas ao sono e facilitar a harmonização deste com o «relógio biológico», ou seja, acertando os ponteiros dos ritmos circadiários (noite e dia). E para os que pensam que o sono pode ser compensado com horas de sono extra ao fim-de-semana: desenganem-se. Nem sempre é possível «indemnizarmo-nos» pelas «alterações e défices registados anteriormente». E, com o desenrolar da idade», essa possibilidade vai decrescendo.

«Se, por motivos de trabalho ou diversão, tentarmos dormir no período diurno a seguir a uma noitada, não temos a mesma profundidade e arquitectura de sono que teríamos se tivéssemos dormido durante a noite. Sabe-se, por experiência própria, que o sono fora de horas não tem o mesmo valor. É, por isso, importante ter horários e condições certas para dormir», acrescenta António Atalaia.

Embora, em média, um adulto precise de dormir cerca de sete a oito horas, «há que respeitar as necessidades individuais». O importante é sentirmo-nos descansados ao acordar, respeitando os ritmos regulares: deitar e levantar a horas certas, todos os dias. «Ao alterarmos repetidamente os horários de sono, os ciclos biológicos ficam, gradualmente, desajustados, criando, assim, dificuldades em adormecer».

 

 

O sono não é todo igual

O sono divide-se em duas fases: um ciclo mais superficial e outro mais profundo. «Desde que se adormece até que se acorda, vai-se passando por uma série de degraus. Estas fases, que se sucedem durante a noite, obedecem uma ordem hierárquica», fundamenta João Carlos Winck. Quer isto dizer que, em cada estádio de repouso, as funções vitais vão-se modificando.

É na fase do sono profundo que se carregam as energias para o dia seguinte. Mas não só. «Sabe-se, por exemplo, que a hormona de crescimento e outros elementos biológicos são segregados pelo organismo durante esta fase de sono». Para se manter um sono totalmente reparador, «é fundamental cumprir todas as etapas e, se possível, acordar imediatamente a seguir ao sono REM. Esta sigla do inglês, que significa "rapid eyes movement", é o último patamar do repouso.

 

Glossário do sono

«A variedade dos distúrbios do sono é enorme e interferem com outras patologias», adianta António Atalaia. O neurofisiologista define alguns dos males que afectam o sono.

- Bruxismo: é uma designação para quem range os dentes durante o sono;

- Roncopatia e síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS): são patologias de foro respiratório que afectam mais os homens do que as mulheres, pelo menos até à menopausa. A primeira é comummente conhecida por ressonar. Já a SAOS está relacionada com as paragens respiratórias durante o acto de dormir. Está demonstrado que as apneias do sono são uma das causas de hipertensão arterial secundária, podem provocar arritmias cardíacas e, ao provocarem sonolência diurna excessiva, estão na origem de acidentes de viação e de trabalho;

- Narcolepsia esta patologia rara caracteriza-se por uma tendência anormal para adormecer durante o dia nas situações mais impróprias. Tem um conjunto de sintomas acompanhantes: paralisia durante o sono, perda súbita do tono muscular em resposta a determinadas emoções e alucinações ao adormecer;

- Parassónias: englobam o sonambulismo e outros distúrbios do sono, que se manifestam por comportamentos de agitação, deambulação ou mesmo agressão, os quais ocorrem sem que o doente desperte.

 

Tratamento

Embora não haja cura para algumas das patologias que interferem com a qualidade do sono, saiba os tratamentos que estão à disposição de quem sofre por não conseguir dormir. «A síndrome da apneia obstrutiva do sono tem tratamento eficaz, mas só alguns dos doentes é que podem ser curados. É preciso ser realista e prudente quando se fala nas perspectivas terapêuticas deste grupo», diz António Atalaia.

«As insónias podem ser resolvidas, não só com medicamentos, mas com a modificação de alguns comportamentos ou pelo tratamento das doenças que estão na origem da insónia, sejam elas de foro psiquiátrico, cardiológico, endócrino ou outro», prossegue. Já nas parassónias e no bruxismo, a administração de fármacos «consegue resolver o problema». Em situações de bruxismo, «pode-se, ainda, recorrer a aparelhos protésicos de protecção dentária».

No fundo, para o especialista, praticamente todas as perturbações do sono têm tratamento, embora nem todos os casos sejas passíveis de cura. Isto deve-se, fundamentalmente aos avanços registados na Medicina do Sono. «O desenvolvimento de novas moléculas e a compreensão destas doenças são grandes pilares do tratamento».

 

Medidas para uma boa higiene do sono

Para nunca ficar a contar carneirinhos a noite toda, João Carlos Winck, deixa alguns conselhos para ter um sono reparador. Estas medidas, segundo o especialista, são universais, mesmo para quem não tem dificuldades em dormir.

- Nunca tomar café ao lanche; a cafeína é um estimulante que prejudica o sono; - Fumar duas horas antes de ir para a cama prejudica o adormecer;

- Nunca ir para a cama nas três horas imediatamente depois da refeição;

- Deitar e levantar nas mesmas horas, tentando que este período não sofra grandes variações;

- Desligar a televisão quando nos deitamos. «O estímulo da televisão vai prejudicar o relaxamento», completa João Carlos Winck, adiantando que se trata de uma tendência contrária ao acto de adormecer.

Para mais informações...

A APS acaba de lançar em
www.apsono.com o novo site da Associação. Neste site, é disponibilizado um teste de sono online para a população em geral e informações relativas à importância do sono.

AP


publicado por Lumife às 19:22

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