SABIA QUE...?

Agosto 02 2009

A propósito do Dia Mundial do Orgasmo, assinalado a 31 de Julho, tivemos uma conversa franca e aberta com a sexóloga Marta Crawford. A entrevista começou pelo fim – pelo orgasmo –, mas deslizou para outros temas dentro da sexualidade. Sem tabus, claro.

Como se pode definir o orgasmo?

O orgasmo é uma sensação subjectiva de prazer, que ocorre através de uma estimulação, feita quer a dois, quer individualmente. Basicamente, no momento do orgasmo, há uma transformação fisiológica e física: no homem, através da ejaculação (apesar de esta não ser sinónimo de orgasmo); e, na mulher, através de todas as contracções que tem no aparelho reprodutor.

Os franceses dizem que é um momento de “quase morte”; é um momento de escape, de êxtase, que faz com que as pessoas possam até perder o sentido da realidade. Mas se, mecanicamente, o orgasmo não é difícil de obter, porque os corpos reagem a uma estimulação, a sua qualidade a nível psicológico depende da qualidade de uma relação a dois. O ideal é a conjugação entre o plano físico e o psicológico.


Diz que, mecanicamente, o orgasmo não é difícil de atingir. Mas há muitos casos de mulheres sexualmente activas que têm dificuldades…

Sim, casos de anorgasmia. Existem muitas mulheres que não conseguem, têm dificuldade em atingir o orgasmo. Mas muitas são mulheres que nunca se estimularam, nunca se masturbaram. São mulheres muito contidas que receberam uma educação muito fechada, muito púdica, ou que têm pouco à-vontade com o seu próprio corpo, que nunca observaram os seus genitais. E não estou a falar de mulheres mais velhas, estou a falar de mulheres de todas as idades.

A maior parte das mulheres que sofrem de anorgasmia têm um historial de não masturbação, de alguma vergonha com o corpo, e muitas delas, por exemplo, racionalizam muito a relação e não se conseguem deixar ir; são espectadoras da própria relação. Mas a terapia existe e normalmente funciona, porque ajuda a mulher a descobrir o seu próprio corpo, a centrar-se em si, aprender a deixar-se ir. Passado algum tempo, normalmente conseguem começar a ter orgasmos, não só individualmente, como também a dois.


Antigamente dizia-se que a masturbação fazia mal. Agora, pergunto: a masturbação faz bem?

Sim. Ao contrário daquilo que se pensava anteriormente, a masturbação tem uma série de benefícios. Hoje em dia, é muitas vezes uma das indicações em termos de terapia. Nos casos de anorgasmia, sugerimos que a mulher passe a tocar-se, a descobrir o seu próprio corpo, sempre dependendo da pessoa e do tipo de ideia que tem sobre a própria sexualidade.

Mas, no fundo, em termos de benefícios para a saúde, a masturbação, como o sexo, reduz o stress; liberta a tensão sexual; promove o prazer sexual e íntimo; alivia as dores sexuais em muitas mulheres; melhora a qualidade do sono; aumenta o fluxo sanguíneo em toda a zona genital; fortalece a tonicidade muscular de toda a zona pélvica e anal, reduzindo, de alguma forma, as hipóteses de incontinência urinária; estimula a produção de endorfinas, criando uma sensação de bem-estar; melhora a auto-estima…

Enfim, em termos gerais, a masturbação é uma coisa boa, e ajuda de facto no tratamento de certas disfunções sexuais. Claro que se um homem ou uma mulher passa a recorrer à masturbação porque tem dificuldades na relação a dois, ou exagera na sua frequência, aí torna-se um problema, que deve ser resolvido. Mas, em termos gerais, é uma coisa positiva.


Há a ideia de que existem dois tipos de orgasmo feminino: aquele que tem a ver com a estimulação do clítoris, e o que tem a ver com a penetração. Freud dizia que a mulher que não conseguisse atingir o orgasmo simplesmente através da penetração era imatura sexualmente. Ainda há mal-entendidos ou preconceitos em relação a isso?

Sim, vêm mulheres ao meu consultório porque se queixam de que não têm orgasmo, mas, depois, quando começo a perguntar se nunca tiveram, às vezes dizem que têm, mas através da masturbação ou de sexo oral... Mas, mesmo assim, acham que não têm orgasmo porque não o atingem através da penetração. No entanto, não há nada de errado com as mulheres que normalmente só obtém o orgasmo através de estimulação externa. Aliás, 80 e tal por cento das mulheres consegue o orgasmo precisamente desse modo, porque o clítoris tem uma série de terminações nervosas. São raras as mulheres que não têm prazer com a estimulação do clítoris.

O problema é que, como há a ideia de que sexo é uma relação coital, logo, toda a gente deseja atingir o orgasmo através da penetração. Só que para o homem, de facto, é mais fácil, porque a penetração é muito estimulante para ele: a humidade, o calor da vagina, os movimentos de “vai e vem” ajudam a estimular, porque o pénis, a zona da glande, tem muitas terminações nervosas e por isso mesmo está a ser totalmente estimulado com a penetração.

Mas, no caso feminino, estando essas terminações nervosas no exterior, por muitos movimentos que o homem possa fazer, se não houver estimulação exterior, então é insuficiente. Eu costumo dizer que o pénis, por si só, não faz tudo. Só que os homens ainda não perceberam isso.

Mas a mulher também tem responsabilidade…

Tem, tem. Mas muitas vezes, de facto, também tem a ideia de que tem um problema. Mas se a relação sexual é muito rápida, ou muito dirigida só para a área genital, ou se não há preliminares, se não há envolvimento, obviamente é difícil atingir o orgasmo.



Para além da dificuldade em atingir o orgasmo, que outras disfunções sexuais são mais comuns?

A minha percepção empírica é que a falta de desejo feminino é muito comum. O vaginismo – a dificuldade em ter uma relação de penetração – também. No caso masculino, pedem-me ajuda homens com problemas a nível da ejaculação prematura, mas também começa a ser frequente eles terem falta de desejo.

Tudo é, de algum modo, tratável?

As situações de desajuste surgem muito em função de problemas individuais, ou da relação com outra pessoa, ou de situações que têm a ver com o passado, e que influenciam de alguma forma o presente. Trabalhando essas situações, sejam elas questões da infância, da juventude, do último relacionamento, traumas sexuais, preconceitos, é possível melhorar a vivência da sexualidade. Em relação a um casal em que a mulher tem falta de desejo sexual, tem de se avaliar o que se passa. E muitas vezes através da terapia, o casal até descobre de que, apesar de estarem há muito tempo juntos, podem viver a sexualidade com prazer. Em termos de terapia, há que pôr o casal numa postura diferente, quase que num recomeçar muito sensorial, e normalmente funciona bastante bem.

As terapias normalmente têm seis a sete fases; passam por uma fase muito sensorial, em que o terapeuta dá uma série de recomendações ao casal, e cria também obstáculos. Por exemplo, no início, o casal não pode ter uma relação coital, não pode tocar-se nos sítios mais óbvios, mais sexuais, mas tem de ter sessões de intimidade três a quatro vezes por semana. Depois, de 15 em 15 dias voltam ao terapeuta; nós vamos avaliando como as coisas correram, vamos acrescentando mais passos, e vai-se evoluindo até ao ponto em que já é possível haver relação coital.

Mas, no fundo, a ideia é descobrirem-se, redescobrirem-se, baixar tudo o que tem a ver com a ansiedade coital, questões relacionadas com a penetração, tentar elevar o desejo através dos impedimentos, tentar de facto voltar a estar quase no início de uma relação, em que as pessoas são muito mais afectuosas umas com as outras, muito mais atentas, tocam muito mais. Às vezes, na terapia trabalhamos questões tão simples como a partilha das tarefas domésticas, os horários. Apesar de ser uma terapia sexual, às vezes falamos de questões como as famílias de origem, os avós ou os pais que se metem muito, a gestão dos filhos. Questões relacionadas com a auto-estima, com o próprio corpo, com a auto-imagem, com a auto-confiança, tudo isso, consoante a situação, é trabalhado de uma forma terapêutica, porque tudo tem a ver indirectamente com a sexualidade.



Para finalizar, deixe-nos um conselho para uma vida sexual mais satisfatória.

Há muitas medidas que se pode aconselhar, mas, basicamente, a primeira é saber falar sobre o assunto. Se o casal tem receio ou vergonha de falar sobre as suas necessidades, do que gosta e desgosta, se não tem à-vontade para falar sobre as fantasias, obviamente a relação começa a morrer, porque começa-se a ir para a relação sexual, não como uma coisa boa, mas como uma coisa que tem que ser. A maior parte dos casais que me procura é porque a sua sexualidade tomou uma certa rotina, uma certa insatisfação, e uma das coisas que tento ensinar é o aprender a ouvir. E não ter pressa. Porque a sexualidade não tem que ser vivida com pressa. Tudo bem que existem rapidinhas, que são uma coisa boa de vez em quando, mas se a vida sexual se transforma no dia-a-dia numa rapidinha, obviamente deixa de conseguir ter prazer.

A mulher leva muito mais tempo a ficar excitada que o homem (dependendo da idade); se não houver a capacidade de estimular devidamente, se houver pressa, se o homem se encaminha logo para os genitais e para as mamas da mulher, se não há capacidade de tocar, de descobrir o corpo um do outro e avançar lentamente, sem ter a obrigação de fazer uma espécie de menu sexual, em que tudo tem que acontecer, e acontecer tudo da mesma forma, obviamente ao fim de algum tempo, isso produz uma certa insatisfação.

É preciso comunicar, saber ouvir bem as necessidades do outro. A ajuda basicamente passa por isso. A conversação leva a que possamos melhorar qualquer envolvimento sexual. E, em última instância, se já se optou por uma série de técnicas, de tentativas para melhorar a relação e se vê que não é possível melhorar, então há que procurar os técnicos dentro da área da sexologia, que podem orientar o casal no sentido de ter uma vida sexual satisfatória.

E uma vida sexual satisfatória passa certamente por não viver concentrado(a) na busca do orgasmo…

Sim. Se os casais estão concentrados na obtenção do orgasmo, na obtenção rápida do orgasmo, não usufruem do bom que é o relacionamento sexual: a vivência, o olhar, o beijar, o tocar, o cheirar, tudo o que tem a ver com as sensações. Hoje é quase tudo orientado para se ir à caça do orgasmo, mas o que é certo é que é preciso saber viver a sexualidade, aí é que se diferencia a qualidade do orgasmo. Há casais que já não se beijam de língua, já não se olham nos olhos durante o acto sexual! Quando isso acontece, até se pode conseguir atingir um orgasmo – porque mecanicamente, como disse, não é muito difícil – mas psicologicamente será um orgasmo de segunda. E para quê ter um orgasmo de segunda quando se pode viver um de primeira…?


Texto: Ana João Fernandes

 

 

 

 

 

 

publicado por Lumife às 18:27

Amei o texto! Sobretudo no que se refere ao orgasmo vaginal. Eu só fico satisfeita com o orgasmo da penetração! Minhas amigas me olham como se eu estivesse falando russo e até trocam olhares, como se eu fosse louca. O sexo oral, a fricção do clitóres me fazem gozar, mas tudo isso soa como parte das preliminares. A penetração é o momento mágico; e aquele vai e vem me leva ao sétimo céu! É diferente, é profundo, é o verdadeiro prazer, pode ter certeza!!!
aldilelian@hotmail.com a 27 de Agosto de 2011 às 21:03

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