SABIA QUE...?

Maio 01 2005
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No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

*

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

*

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

*

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

*

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

*

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

*

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

*

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

*

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

*

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

*

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

*

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

*

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

*

Boa noite. Eu vou com as aves!

*



(Eugénio de Andrade, Antologia Breve)

























publicado por Lumife às 23:18

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